O que faz um filósofo

«Diotima: A verdade é esta: nenhum deus ama o saber ou deseja ser sábio (pois que já o é), nem qualquer outro que possua o saber se dedica à filosofia, do mesmo modo que não são também os ignorantes que a ela se dedicam ou que aspiram a ser sábios! A ignorância acarreta efetivamente consigo este peso: é que os que julgam possuir em suficiência beleza, bondade e inteligência, nada disso possuem: e quem se não crê destituído não aspira, consequentemente, a um bem de cuja falta se não apercebe.

Sócrates: Como qualificaremos então esses que se dedicam à filosofia, se não são sábios nem ignorantes?

Diotima: Isso salta até aos olhos de uma criança! São intermediários entre ambos os extremos, como indubitavelmente sucede com o Amor (Eros): pois se a sabedoria se conta entre as mais belas coisas e se o Amor é amor do Belo, forçosamente terá de ser filósofo e, como filósofo, situar-se no meio termo entre sábio e ignorante.[1]»

Mas será que reconhecer a própria ignorância é suficiente para desejar alcançar a sabedoria e partir assim na direcção da filosofia? Alguém pode perfeitamente reconhecer que não percebe nada de música clássica, e mesmo assim não ter qualquer interesse em saber. O que falta então para levar uma pessoa a desejar a sabedoria? Será uma característica da natureza pessoal de cada um, como a curiosidade? Será algo desenvolvido ao longo da sua vivência, que a direcciona para o saber? Uma combinação dos dois? E poderá alguém que reconhece a sua ignorância e procura a sabedoria, mas por motivos diferentes do amor ao saber, como o desejo de alcançar o poder, ser considerado um filósofo?


[1] Platão, Banquete, trad. M.ª Teresa Schiappa de Azevedo, Lisboa, Ed. 70, 1998, 204a1-b5.

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