água
às vezes acordo
com vontade de partir alguma coisa
não por raiva
nem sequer por tristeza
apenas para ouvir o som que faz uma coisa
quando deixa de ser inteira
ontem discutimos
por causa de nada
uma palavra, uma porta, a maneira como
deixei um copo em cima da mesa
depois já estávamos
a atirar insultos pela casa
como se cada frase partida
pudesse levar consigo
aquilo que não sabíamos dizer
fomos para a piscina
ela entrou primeiro
eu fiquei a vê-la
da espreguiçadeira
estava a escurecer
há qualquer coisa de cruel
em ver alguém desaparecer
devagar
primeiro os ombros
depois o cabelo
depois apenas a água
serena
pensei que devia fazer algo
mas quando finalmente mergulhei
já não estava lá
a água fria
o fundo da piscina
a falta de ar
a minha cara
saí
corri pela rua
a gritar silencioso
como um afogado