ode à professora de yoga improvisada

Às oito da manhã
uma mulher sem experiência em yoga
está a ler instruções do telemóvel.

O professor habitual não veio.
Talvez esteja doente.
Talvez se tenha encontrado
e decidido não voltar.

Ela diz:

BREATHE IN

E nós respiramos.

BREATHE OUT

E nós obedecemos
como se a respiração fosse uma função
que ainda não soubéssemos usar.

À nossa frente o mar.
Alguém no horizonte cai
de uma prancha de paddle.

Há homens de cinquenta anos
sentados de pernas cruzadas
com os olhos fechados
a hiperventilar como animais.

Uma velhinha pára por um momento
e temo que esteja a morrer.

A mulher repara.
Pausa.
Olha para o telemóvel.

PUSH YOUR PROBLEMS AWAY

E todos empurramos.

O divórcio.
A prestação da casa.
O filho que não telefona.
A próstata inchada.
O trabalho.
Aquela coisa que aconteceu em 2007
e de que ninguém fala.

Empurramos tudo para longe
com as palmas das mãos abertas.

O homem ao meu lado
empurra o ar com uma convicção
que nunca deve ter aplicado
a nenhum dos seus problemas.

YOU ARE NOT YOUR LIMITATIONS

E há qualquer coisa nisso.

Porque durante alguns segundos
nenhum de nós é o corpo
que começa a falhar.

Nenhum de nós é a pessoa
que pensa na pessoa
que devia ter sido.

Somos apenas pulmões.

Sacos de carne desesperados
a abrir e fechar
diante do Atlântico.

BREATHE

Ela passa o dedo no ecrã.

Engana-se.

Volta atrás.

HOLD

E seguramos.

O silêncio cresce
entre vinte e três adultos
sentados como crianças castigadas
por um deus particularmente zen.

RELEASE

E todos largamos o ar
ao mesmo tempo.
A praia inteira
parece suspirar connosco.

A mulher sorri, aliviada.

Também ela não sabe muito bem
o que está a fazer.

E talvez seja por isso
que é a melhor professora
que tivemos nessa semana.

Porque não promete nada.

Não diz que amanhã seremos melhores.

Não diz que podemos recomeçar.

Apenas olha para o telemóvel
e diz:

ONE MORE TIME

E nós, idiotas,
fazemos tudo outra vez.

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