sobre o meu pai
Sinto que devo esclarecer algo sobre o recente falecimento do meu pai, não só como seu primogénito, mas como resposta aberta a comentários que tenho recebido de pessoas bem-intencionadas que, não sabendo o contexto todo, acabam por me magoar acidentalmente nas suas tentativas de dizer algo mais do que os simples pêsames.
O meu pai era um homem inteligente, culto, idealista, orgulhoso. Podíamos encontrá-lo a ler um livro ou o jornal a qualquer hora, e gostava de partilhar o seu conhecimento em conversas longas. Estava sempre bem vestido. Tinha bom humor e gostava de contar uma boa anedota. Gostava de filmes de acção, em particular os “Die Hard”. Tinha um forte interesse em tecnologia antes de ser comum, e trouxe um computador com Internet a casa muito cedo. Levava-me a pescar com ele aos fins-de-semana. Por estas influências, estou-lhe grato.
Era um empresário, mas faltava-lhe o sangue-frio para isso. O mundo dos negócios é um mundo cruel, onde o oportunismo impera como virtude e os fortes devoram os fracos sem pensar duas vezes. Isto foi algo que ele teve de aprender da pior maneira quando não conseguiu livrar-se das consequências de uma série de más decisões que cometeu e o levou à falência. Nunca mais foi o mesmo.
Quando o dinheiro começou a faltar, começaram também as discussões constantes com a minha mãe. As discussões ficaram cada vez mais violentas até que se tornaram bizarras, e acabei por assistir a cenas que me deixaram imagens queimadas no cérebro de forma permanente. Após alguns anos, isto tudo culminou num divórcio feio e arrastado.
Eu era ainda um rapaz com os primeiros pêlos na cara a última vez que vi o meu pai. Apenas posso continuar a escrever sobre a minha experiência.
A minha adolescência foi muito difícil. A sua ausência não era apenas um silêncio. Era um grande buraco no peito que me obrigava a crescer torto, sem direcção aparente. A minha mãe fez tudo o que pôde, mas, por mais que se esforçasse, não podia ser o meu pai, nem seria justo esperar isso dela. Em contrapartida, eu queria sobretudo mostrar que não estava afectado. Queria ser mais forte, mas ao mesmo tempo não sentia que pertencia a lado nenhum, por isso refugiei-me como pude em livros, videojogos, filmes e outras ficções onde as dificuldades do protagonista acabam por fazer sentido. Passava horas a ouvir música com fones nos ouvidos e a falar para uma audiência imaginária, até que encontrei nos fóruns da Internet primordial uma espécie de pai substituto feito de uma amálgama de estranhos online tão desajustados como eu, com quem pude realmente desabafar e aprender, desde tocar guitarra a passar uma camisa a ferro.
Quanto ao meu pai, não senti que fosse um simples afastamento, mas mais como uma desistência de mim, uma recusa em ocupar a sua função de pai quando eu mais precisava de ser filho. Não era como se ele estivesse do outro lado do planeta. Ele pairava perto, como um fantasma. Pessoas aleatórias aproximavam-se de mim constantemente com um sorriso para me contar uma variação qualquer de “ainda ontem vi o teu pai por aqui,” e eu nunca percebia como seria suposto responder.
Durante anos caminhei com esse buraco no peito. Olhava à volta e via outros pais presentes, imperfeitos, mas ali, e sentia inveja. Conhecia outros jovens cujos pais tinham falecido demasiado cedo, e sentia inveja. Depois sentia-me culpado por sentir inveja, e finalmente sentia-me irritado porque não reconhecia a culpa. Todos estes sentimentos terríveis, tive de digerir sozinho.
Quando cresci o suficiente para ter autonomia, começaram-me então a abordar no sentido que devia ser eu a ir ao seu encontro; “porque ele é teu pai”, como se esse simples facto bastasse para exigir de mim um movimento que nunca lhe foi exigido a ele.
Eis a verdade: eu não o procurei porque tinha medo. Estava finalmente a sentir vento fresco na cara quando entrei na universidade. O buraco começava a cicatrizar e tinha receio que a ferida se pudesse reabrir se não tivesse cuidado. Eu sei disto, porque não era só com ele. Não conseguia confiar ou mostrar-me vulnerável a quem quer que fosse, algo que me atormenta até aos dias de hoje e a razão por que me está a custar tanto escrever isto. É um dos meus ramos que cresceu torto. Guardava a minha distância segura, não com qualquer tipo de crueldade no coração, mas por mera autopreservação.
Agora que ele morreu, as pessoas vêm-me falar de perda, e eu continuo sem perceber como é suposto responder. Não sinto perda. Passou demasiado tempo. Se tanto, sinto a confirmação de uma ausência antiga, o fechar de um longo capítulo de páginas em branco.
No entanto, não lhes levo a mal. Choram a imagem do homem que conheceram, não o pai que eu não tive. O meu luto é outro: é pelo que não aconteceu e pelo que poderia ter acontecido. Hoje não choro um pai querido. Choro, quanto muito, o espaço vazio que deixou na minha vida. Choro o pequeno rapaz e a coragem que teve de reunir sabe-se lá onde para continuar a escrever a sua história sem um pai.
Perdoei-o com o passar dos anos, na medida do possível, sem qualquer espectáculo ou cerimónia. Aceitei que ele não soube, não pôde, ou não quis ser o que eu precisava. Ao aceitar isso, dei-me o direito de não forçar um encontro demasiado tardio só para aliviar a consciência dos outros, quando quem carregou a consequência do seu abandono fui eu.
Ele ligou-me uma única vez, há meia dúzia de anos. Eu estava emigrado na Holanda e estava a nevar lá fora e não reconheci o número nem a sua voz. Começou por me falar como se nada se tivesse passado num discurso incoerente que culminou numa tentativa de evangelização para uma dessas religiões neopentecostais que se alimentam de almas perdidas. Tive a certeza após essa conversa que não haveria mais nada a esperar dele. Então, para minha surpresa, não senti raiva por isso, apenas pena. O tempo foi misericordioso e transformara a minha ira adolescente em tristeza pelas circunstâncias que levaram ambas as nossas vidas ao absurdo daquele que seria o nosso último contacto.
A partir daí, escolhi manter as memórias boas que poderia começar a apreciar agora que seguira em frente, em vez de pintar por cima as de um homem que já não conhecia. Fi-lo para proteger o pequeno rapaz traquina que teve de ficar para trás para que eu pudesse chegar onde cheguei, porque preciso agora que ele se sinta seguro para voltar para casa no meu peito. Sobre esta escolha, não espero compreensão, mas espero respeito.
Ainda sobre este último contacto, levantou uma nova perspectiva sobre a sua saúde mental que, em retrospectiva, e apesar de não justificar, traz alguma claridade aos seus motivos. Do que sei, ele passou anos a vaguear com a cabeça cheia de fogo até que foi acolhido por uma família de bons samaritanos, que não lhe era nada e pouco lhe pediu em troca, e assim passou o resto dos seus dias: a trabalhar numa quinta durante o dia, e a ler durante a noite. Espero mesmo que ele possa ter encontrado alguma paz consigo próprio nessa sua vida simples e rodeado de boa gente.
A fragilidade mental pode afectar qualquer um e exige o devido cuidado no momento certo. Se não for dado por aqueles que o podem fazer, a pessoa fragilizada fica entregue à sua sorte. Eu sou grato porque tive muita sorte. O meu pai acabou por ter sorte, nos últimos anos. Mas muitos não terão a mesma sorte, e esses têm finais bem mais tristes do que o meu pai, ou são apenas esquecidos como notas de rodapé em histórias de outrem.
Por isso, peço-vos que, se quiserem honrar a memória do meu pai, leiam estas palavras como um alerta e cuidem das pessoas importantes na vossa vida enquanto têm a oportunidade. Podemos ser criaturas extremamente solitárias e teimosas dentro das nossas cabeças, e basta não conseguirmos sair de um abismo mental uma única vez para isso ser o início de uma tragédia à qual ninguém consegue mais meter a mão.
Descansa em paz, pai. A mim resta-me preservar com carinho as memórias antigas das tardes solarengas a pescar robalos na Ria de Aveiro.